segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Matéria Especial - Violência contra a mulher, cultura do estupro e auto-organização feminina


Violência contra a mulher, cultura do estupro e auto-organização feminina


Por Danielle Faria e Danieli Santos, do Coletivo Elas da Corrente, 
de Rio das Pedras - Jacarepaguá

No ano de 2015, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública, divulgados no Dossiê Mulher*, no município do Rio de Janeiro foram feitos 57232 registros de violência contra a mulher. Destes, 27436 ocorreram na zona oeste da capital. Do total de registros, 9007 foram por ameaças, 8972 por lesão corporal dolosa, 732 por estupro, 67 por tentativa de estupro, 50 por homicídios. Dos casos, 62% ocorreu na própria residência e em 46% o agressor era o companheiro ou ex-companheiro.

Os dados refletem as profundas desigualdades de gênero naturalizadas nas relações sociais e escancaradas no machismo, na misoginia e na cultura do estupro, as bases de um projeto de sociedade patriarcal.

A violência contra a mulher se estabelece e se perpetua como cultura, presente na culpabilização das próprias vítimas pela agressão sofrida, na objetificação do nosso corpo, na padronização de nossos desejos e afetos, na restrição do exercício de nossa liberdade, nos salários quase sempre inferiores aos dos homens. Se constitui não apenas como um problema de segurança pública, mas como uma questão de saúde pública e de direitos.

Diante desse cenário, as formas de resistência são inúmeras. Seja em movimentos de base territorial ou em espaços de articulação mais amplos, as mulheres seguem se auto-organizando, criando formas de fazer frente ao patriarcado e buscando novas formas de (re)existir.

No território da Zona Oeste do Rio, diferentes iniciativas se estabelecem como espaços de luta e reflexões, sendo expressiva a atuação de mulheres na agroecologia, na agricultura urbana, economia solidária, educação popular, movimentos por moradias e diversas manifestações artístico-culturais.

Pode-se destacar, dentre estas, o Comitê Popular de Mulheres da Zona Oeste, frente auto-organizada que busca superar desigualdades locais e de gênero. O Coletivo Mulheres de Pedra atua na localidade de Pedra de Guaratiba, autogestionado por uma rede aberta de mulheres promovendo a economia solidária. Como proposta de Educação Popular, o IPHEP se constitui como curso pré-vestibular comunitário que tem nas temáticas de gênero e desigualdade racial suas bases. Na favela de Rio das Pedras, o Grupo Mulheres de Atitude e Coletivo Elas da Corrente buscam promover a emancipação e o protagonismo feminino na comunidade. 




Cinema e equidade de gênero
O coletivo Elas da Corrente foi criado em setembro de 2014, a partir da articulação entre mulheres e grupos informais que vinham atuando em Rio das Pedras. A parceria resultou em diversas atividades de cunho político-culturais, envolvendo a prevenção de violência de gênero e promoção de saúde da mulher.


Em 2016, o grupo iniciou o Projeto Curta Rio das Pedras, com o apoio do Instituto Rio e parceria com a escola estadual do território, objetivando promover formação em audiovisual para adolescentes e jovens da comunidade. Com oficinas teóricas e práticas, a linguagem cinematográfica foi utilizada como ferramenta para discutir gênero e violência contra a mulher entre os participantes.



A iniciativa propiciou a aproximação com outros coletivos artísticos-culturais do território, como o Cine & Rock e a Roda Cultural de Rio das Pedras resultando na realização de saraus e rodas de conversa, articulando música, poesia e exposições fotográficas. A partir destes encontros, os jovens participantes do projeto foram convidados a produzir um clipe musical para grupo de Rap local.



Outro fruto do Curta Rio das Pedras é a realização do curta-metragem de ficção “Rio das Marias”, que mostra o olhar de uma jovem recém-chegada à comunidade para as diferentes situações de exclusão social e de violência contra a mulher com que se depara. Ainda em fase de produção, o filme será finalizado e exibido em dezembro em festival realizado na comunidade, reunindo parceiros locais e da Universidade Comunitária da Zona Oeste.

Leia também:
Um terço dos brasileiros culpa mulheres por estupros sofridos - Fernanda Mena - 21/09/2016:  http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/09/1815301-um-terco-dos-brasileiros-culpa-mulheres-por-estupros-sofridos.shtml




Nenhum comentário:

Postar um comentário