terça-feira, 30 de agosto de 2016

Matéria Especial - Projeto Cuidar: Saberes Itinerantes



Por Maria de Lourdes Braz Vieira, Fundadora e Coordenadora do Centro Dia Santa Ana

A Casa de Santa Ana foi criada em 1991, na comunidade da Cidade de Deus, onde implantou dois dos principais modelos de atendimento recomendados pela Lei 8.842 /94 e das diretrizes da Política Nacional do Idoso, são eles, o Centro Dia e o Centro de ConvivênciaPioneira no Brasil nas modalidades citadas, tem como Missão promover saúde e bem-estar integral, prevenindo o asilamento, e o isolamento social dos idosos, integrando-os à família, à comunidade, e em especial às gerações mais jovens, através de 03 programas básicos de atenção:

Prevenção – Saúde integral através de cuidados básicos de higiene, nutrição, e de variadas atividades terapêuticas, educativas e lúdicas, entre outras;
Integração Intergeracional – Encontro de gerações através de atividades educativas, artísticas e culturais, que propiciam transmissão de conhecimentos, descobertas e prática de novas habilidades; fortalece os laços com a comunidade e outras organizações sociais;
Educação - Palestras, oficinas, e cursos de capacitação de cuidadores de idosos com objetivo de informar e sensibilizar a população acerca do envelhecimento, possibilitando também geração de emprego e renda para a população local, e de arredores da Cidade de Deus.

Sobre o Projeto Saberes Itinerantes:
Em 2016, com o apoio do Instituto Rio, a CSA está mobilizando organizações e grupos dentro e fora da Cidade de Deus com objetivo levar informações e sensibilizar o maior número possível de pessoas para questões do envelhecimento. Através de palestras e oficinas praticas, tentamos motivar e oferecer incentivos a criação de novos espaços onde pessoas de todas as idades possam compartilhar informações, e desenvolver atividades que irão fortalecer o cuidado com a pessoa idosa, podendo esta atuar como exemplo de força para modificação da cultura atual sobre o envelhecimento.


      
   Alunos de administração, biologia, enfermagem e psicologia UNISUAM – Campo Grande
     

O Projeto atua com base na Gerontologia - Ciência que estuda o processo de envelhecimento do Homem, nos aspectos biopsicossociais; e na Geriatria - Ciência que estuda as doenças pertinentes aos idosos, e é desenvolvido por uma equipe multidisciplinar que envolve diretamente 03 fisioterapeutas, 01 assistente social, 02 enfermeiros, 01 psicóloga, 01 advogada, 01 tecnóloga em comunicação, entre outros profissionais;  juntos elaboram palestras e oficinas com foco no cuidado e prevenção, que trazem importante material e dicas, utilizando uma linguagem simples a acessível a compreensão de todos que se interessem pelo tema.

A seguir listaremos problemas que são comuns na maioria deles (idoso), e aproveitaremos para dar alguns exemplos de doenças e dicas básicas de sinais, sintomas e tratamentos e de primeiros socorros em casos de: Hemorragia, queimaduras e dor no peito. Esse material foi produzido pela professora Telma de Cacio fisioterapeuta e gerontóloga pela SBGG- Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, ela faz parte da equipe de formadores de cuidadores de idosos.

 Apresentaremos os 05 is da Geriatria
  •       Iatrogenia 
  •     Instabilidade postural
  •     Imobilidade
  •     Incontinência
  •     Insuficiência cerebral




  • Iatrogenia
Procedimento médico ou de quem o ajude na função de cuidar, mesmo com boa intenção, sendo certo ou errado, justificado ou não, que resulta em danos à saúde do idoso.
Pode ocorrer Iatrogenia em um caso de Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), que vulgarmente chamamos de pressão alta.  Esta doença é crônica, determinada por aumento dos níveis de pressão do sangue nas artérias.

Sinais e sintomas: dor de cabeça, mal-estar e vômito;

Tratamento: é controlada por medicamentos

Quando oferecemos água para aliviar o mal-estar na pressão alta, sem sabermos a causa, podemos estar causando uma iatrogenia. “Por quê? ” Porque pode vir a aumentar a pressão pelo aumento da quantidade de líquido dentro do corpo.
             

·         Instabilidade postural   

Apresenta-se como uma alteração do equilíbrio. É importante fator de risco para queda e perda da independência dos idosos.
Ocorre por diversos motivos: tonturas, dores, diminuição da visão, fraqueza...
Pode ser causada pela Artrose que é uma doença crônica das articulações ocasionada por degeneração da cartilagem que recobre pontas de ossos.

Sinais e sintomas: dor, rigidez e deformidades; 

Tratamento: medicamentoso para controlar os sintomas, exercícios orientados e diminuição do peso corporal.                                          



Nesse caso, como pode ocorrer a instabilidade postural?     

Ao tentar andar, o joelho dói e nesse momento o idoso perde o apoio.   

Uma observação: Osteoporose não é o mesmo que artrose.

Osteoporose é o enfraquecimento dos ossos e não da cartilagem. Tanto a artrose quanto a osteoporose poderão levar a uma queda e fratura do fêmur (osso do quadril). O fêmur fraturado geralmente é caso cirúrgico e faz com que o idoso permaneça por algum tempo acamado.


·         Imobilidade

Resulta da diminuição acentuada dos movimentos e da incapacidade da mudança postural, podendo causar vários danos ao corpo como: úlceras de decúbito (escaras), prisão de ventre, falta de ar.
Pode ser causada pela fratura de fêmur, mas também por Acidente Vascular Cerebral (AVC)             




Que é caracterizado pelo entupimento (isquemia) ou rompimento (hemorragia/derrame) de vasos sanguíneos cerebrais.

Sinais e sintomas: desorientação, perda de força em geral de um lado do corpo, dificuldade em falar.

Tratamento: medicamentoso, fisioterapia, terapia ocupacional.
Ao permanecer acamado pelo AVC, o idoso tende naturalmente a diminuir os seus movimentos.



·         Incontinência Urinária (IU)

É a dificuldade de poder controlar a saída de urina (xixi). Ás vezes o idoso quer se isolar para esconder de todos o que acha ser vergonhoso. O desejo de ficar só (isolamento social) é capaz de levar a um quadro de depressão. A IU pode estar presente no idoso com Diabetes Mellitus (DM), que é doença caracterizada pelo aumento da glicose (açúcar) no sangue.

Sinais e sintomas: sede, fome, alteração no peso, poliúria (urina muitas vezes)

Tratamento: medicamentoso, atividade física, dieta orientada.



·         Insuficiência Cerebral (Transtorno Cognitivo/ Demência)

É a perda ou redução progressiva da capacidade de usar a inteligência, de forma parcial ou completa.

Sinais e sintomas: perda da memória, dificuldade na fala, perda da atenção.

Tratamento: medicamentoso, fisioterapia, terapia ocupacional, musicoterapia...

Complicações: isolamento social, suicídio, traumas graves.

Exemplo: A Doença de Alzheimer que é um tipo de demência marcada essencialmente pela perda da memória e as formas mais adequadas de lidar com a agressividade gerada por essa doença é:

Dicas para o familiar/cuidador - É de extrema importância que consiga controlar as situações de ansiedade e agitação dos doentes de Alzheimer, porque estas podem gerar comportamentos cada vez mais agressivos. A agressividade do portador da Doença de Alzheimer pode ser atribuída a múltiplos fatores, como dores, cansaço, remédios e um ambiente exigente.

Veja abaixo 13 dicas sobre como agir em caso de agressividade por parte do doente de Alzheimer:

1) Não enfrente o idoso e nem peça explicações. Também é importante manter a calma e não gritar ou provocar o doente – nem mesmo levantar o seu tom de voz.

2) Adote uma postura empática e receptiva. Dar um sorriso pode ser a melhor forma de evitar uma crise de agressividade.

3) Busque sempre o contato visual e aproxime-se do idoso aos poucos. Também é importante mostra-se solicito, perguntando ao idoso o que está acontecendo e se você pode ajudá-lo de alguma forma. Lembre-se de nunca realizar movimentos bruscos perto do doente, e muito menos tocá-lo sem que ele esteja esperando.

4) Tente antecipar esses quadros de agressividade, estando preparado para lidar com cada situação.

5 ) Não o apresse na realização das atividades do dia a dia, na hora das refeições ou ao escovar os dentes, por exemplo. Isso pode deixá-lo irritado e aborrecido.  

6) Você deve pensar nessas crises de agressividade como frutos da doença. Não fique triste ou irritado com o idoso por causa de seus descontroles, lembre-se de que é o Alzheimer agindo no corpo do doente.

7) Quando o doente estiver nervoso, procure chamar sua atenção para algo que possa acalmá-lo, como o som de uma música da qual ele goste. Retirar o idoso daquele ambiente para dar um passeio também é uma boa opção.

8) Evite cobranças e exigências aos doentes de Alzheimer. Forçá-los a realizar alguma tarefa, por exemplo, pode desencadear um acesso de raiva.

9) Em casos de crises de agressividade, procure desligar todos os estímulos sonoros e visuais, deixando o ambiente tranquilo e calmo para que o doente consiga se recuperar.

10) Sem deixá-lo ainda mais nervoso, procure saber qual o motivo daquela reação tão agressiva – para evitar que esta situação se repita no futuro.

11) Se o idoso estiver muito agressivo, retire do ambiente todos os objetivos pontiagudos e que possam causar algum ferimento – nele mesmo e em você.

12) Evite repreender o doente de forma brusca. Quando possível, procure sempre fazer elogios.

13) Caso as crises de agressividade se tornem frequentes, busque a ajuda de um médico.

Lembre-se sempre: é importante ter calma e compreender a situação.


·         Hemorragia no idoso - O que fazer?

1) Proteja suas mãos. Use luvas ou um saco plástico.

2) Providencie um pano (toalha, roupa, pano de prato, etc.)

3) Coloque o pano sobre a hemorragia e comprima com força. Tente amarrar o pano ao ferimento.

4) Caso não tenha sucesso, use um cinto e faça “garrote”.

Não use fralda descartável, algodão, etc. Não se preocupe em lavar o ferimento.

Chame o corpo de Bombeiros ou leve a vítima ao hospital. Evite que o idoso possa cometer atitudes que podem gerar ferimentos.

·         Queimadura no idoso o que fazer?

1. Proteja suas mãos. Use luvas ou um saco plástico.

2. Lave o local queimado com água. Água corrente! Água da torneira!

Não use água da geladeira e nem gelo.

Não use:

- Pasta de dente
- Ovos
Babosa
- Água sanitária
      - Açúcar

SÓ USE ÁGUA.  LEVE O IDOSO AO HOSPITAL OU CHAME O CORPO DE BOMBEIROS
Evite que o idoso manipule objetos quentes e só use pomadas com orientação médica.


·         Dor no peito o que fazer?

1) Acione o Corpo de Bombeiros. Imediatamente!

2) Acomode o idoso SENTADO. Não o deite. Mantenha diálogo direto.

3) Administre 2 comprimidos de AAS. Não ofereça em caso de suspeita de dengue ou alergia.

4) Caso ele fique inconsciente:

1.       Segure em seus ombros e o chame! Se ele não responder. Veja se ele respira.
2.       Observe por 10 segundos seu tórax e Abdômen.
3.       Se não estiver respirando; exponha seu tórax e massageie entre os mamilos.
4.       Massageie até o socorro chegar
  1. A cada 2 minutos troque o socorrista que estiver fazendo a massagem.




Referências bibliográficas: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. (Série A. Normas e Manuais Técnicos) (Cadernos de Atenção Básica, n. 19).

FREITAS EV, PY L, NERI A L, CANÇADO FAXC, GORZONI ML, DOLL J. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2ª. Edição. Editora Guanabara Koogan, 2007. Plataforma Lattes (CNPq)


http://conaz.com.br - Congresso Nacional de Alzheimer/portal



segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Entendendo a Violência do Rio: A Criminalização da Pobreza

RIOONWATCH





criminalização da pobreza é um fenômeno global de maus-tratos e preconceito enfrentado por membros mais pobres da sociedade devido a suas circunstâncias econômicas, muitas vezes influenciado por e perpetuando o racismo, e outras formas de discriminação. Pode se manifestar de várias formas, que ocorrem comumente, como em penas excessivas por pequenos delitos, leis e políticas voltadas para “limpar as ruas” de desabrigados, fiscalização arbitrária, prisões ilegais e, na sua forma mais sinistra, violência física ou homicídio. Este artigo busca delinear as muitas formas pelas quais os brasileiros de baixa renda têm sido e continuam a ser submetidos a tratamento injusto pelo governo, sistemas jurídico e penal, polícia e grande mídia.

Contexto histórico

No Brasil, a marginalização e a criminalização dos pobres têm um alicerce que remonta às origens do próprio país. Nos primórdios de sua história, a economia do país usava principalmente mão-de-obra escrava, importando mais escravos do que qualquer outro país do mundo–aproximadamente dez vezes mais do que os Estados Unidos. Um pequeno grupo de proprietários de terras–geralmente de pele mais clara–acumulou e consolidou grandes quantidades de poder e territórios, criando uma lacuna cada vez maior entre aqueles que controlavam a terra e os meios de produção, e aqueles que não os controlavam.
Quando a corte portuguesa chegou ao Brasil em 1808, os escravos constituíam mais da metade da população do Rio; preocupações com uma possível rebelião contra a elite minoritária fizeram com que o Príncipe Regente Dom João criasse a Divisão Militar da Guarda Real de Polícia. O colaborador do RioOnWatch, Patrick Ashcroft, escreve que “na prática, o mandato da Guarda era de subjugação e repressão, pondo fim a qualquer tentativa de revolta e protegendo a elite dominante do Rio”. A própria origem da atual Polícia Militar era voltada para manter a hierarquia social e controlar as massas com base no pressuposto de que os pobres eram criminosos em potencial, ou, ao menos, uma ameaça ao status quo.
Quando o Brasil finalmente aboliu a escravidão em 1888, escassos esforços foram feitos para integrar os ex-escravos, o que imediatamente os colocou numa posição de desvantagem e pobreza. Os ex-escravos libertos e um influxo de migrantes de outras partes do país construíram moradias onde puderam, na falta de moradia a preços acessíveis planejada pelo governo, propiciando o surgimento das primeiras favelas da cidade. À medida que o país se modernizava no século 20, um misto de políticas governamentais que variavam entre a negligência e a repressão mantiveram os pobres como uma população amplamente marginalizada e excluída.
Esta divergência entre as camadas da sociedade brasileira se manifestou na opinião pública sobre os pobres. Textos escritos por “arquitetos, assistentes sociais e médicos que entraram em favelas no início do século 20” descreveram essas comunidades como “atrasadas, sujas e hipersexualizadas”.
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O discurso do governo não era mais sutil. Um discurso da Câmara dos Deputados de 1888 se referia às “classes pobres e viciosas” e argumentava que “quando mesmo o vício não é acompanhado pelo crime”, a própria pobreza “constitui um justo motivo de terror para a sociedade”. O terror e a aversão no discurso justificam políticas nas quais as pessoas pobres precisam ser reassentadas, policiadas e controladas ou até eliminadas. Esta lógica fica evidente nesta declaração de um documento da Prefeitura do Distrito Federal datado de 1930:
“(…) são as favelas, uma das chagas do Rio de Janeiro, na qual será preciso, num dia muito próximo, levar-lhes o ferro cauterizador (…). a sua lepra suja a vizinhança das praias e os bairros mais graciosamente dotados pela natureza (…). A sua destruição é importante não só sob o ponto de vista da ordem social e da segurança, como sob o ponto de vista da higiene geral da cidade, sem falar da estética”.
Atualmente, essas mesmas noções de que as comunidades pobres são lugares “sujos” em uma cidade bonita, ou de que elas são a fonte de problemas de segurança, se expressam tanto no recente retorno da política de remoção quanto na continuação dos programas de policiamento militarizado da favela.
Nas últimas décadas, o crescimento da atividade de gangues em favelas para suprir demandas nacionais e internacionais de drogas levou a sociedade a fazer uma associação entre favelas e drogas e violência urbana, embora estimativas acadêmicas sugiram que menos de 1% dos moradores das favelas estão envolvidos no tráfico de drogas. Em vez de ver a violência nas favelas como resultado da desigualdade sistêmica, algumas pessoas consideram a violência como uma característica inerente das próprias favelas. Assim, os moradores das favelas ganharam uma reputação de serem violentos e perigosos, ao invés de vítimas da significativa negligência histórica do estado. A política do governo de “guerra às drogas” foi moldada por esses preconceitos, que há décadas sustentam uma realidade na qual a principal presença do estado nas favelas foi através da Polícia Militar.
Embora a Constituição de 1988 tenha prometido reformas e benefícios para os membros mais pobres da sociedade brasileira, o policiamento severo da era militar continuou com o pretexto de combater a atividade de gangues. A “guerra às drogas” ameaça particularmente moradores das favelas pobres e negros. Os moradores, independentemente de seu envolvimento, continuam sob risco de serem ameaçados, feridos ou mortos devido à sua presença nestes territórios. Muitos moradores das favelas e observadores argumentam que a polícia continua a ser o principal representante do estado, mesmo em favelas com UPPs, apesar da intenção original declarada do programa de trazer outros serviços além de segurança.

A criminalização da pobreza nos dias de hoje

Atualmente, parece que enquanto brasileiros ricos de pele clara podem ficar bêbados ou fazer arruaça publicamente, os jovens pobres e negros arriscam suas vidas fazendo muito menos. Em várias ocasiões em meses recentes de verão, jovens pobres, majoritariamente negros, que não tinham cometido qualquer crime e não transportavam drogas ou armas foram detidos em ônibus, que iam para a turística Zona Sul do Rio, como criminosos em potencial. Este esforço, em teoria, com o objetivo de reduzir a criminalidade perto das praias de Copacabana eIpanema, foi condenado como ilegal pelo juiz Pedro Henrique Alves da Primeira Vara da Infância, da Juventude e do Idoso, mas a prática de julgar jovens de baixa renda culpados até que se provem inocentes persiste. O pressuposto da criminalidade também tem um impacto na procura de emprego; é sabido que os empregadores olham desfavoravelmente para os candidatos com endereços em favelas. Tal preconceito, naturalmente, dificulta que os moradores da favela encontrem emprego formal e perpetua estigmas e promove o crime ainda mais.
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Muitas vezes excluídos dos espaços públicos frequentados pelos ricos, alguns jovens de baixa renda têm recorrido à mídia social para organizar grandes encontros em shoppings dominados pelos ricos. Estes encontros pacíficos, que se tornaram populares em 2013 e 2014, são conhecidos como rolezinhos. Apesar de sua natureza não-violenta, os rolezinhos são muitas vezes tratados como uma forma disruptiva de protesto e foram proibidos nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Em um domingo em janeiro de 2014, o sofisticado Shopping Leblon fechou suas portas em antecipação a um rolezinho planejado para ocorrer lá naquele dia. Após este incidente, a juíza Isabella Peçanha Chagas determinou uma multa de R$10.000por cada participante no rolezinho.
Mas a proibição dos rolezinhos é apenas uma pequena parte da grande guerra contra os pobres. A Human Rights Watch relata “A polícia do Estado do Rio de Janeiro matou mais de 8.000 pessoas na última década, incluindo pelo menos 645 em 2015. Um quinto de todos os homicídios registrados na cidade do Rio de Janeiro no ano passado foi cometido por policiais. Três quartos dos mortos pela polícia eram negros”. Um número surpreendentemente pequeno de policiais responsáveis por estas mortes foram processados e entre os que foram, quase nenhum foi preso, mesmo no pior dos casos. Por exemplo, no caso do massacre da Candelária, em 1993, no qual nove suspeitos atiraram em crianças de rua que dormiam nas escadarias da igreja da Candelária, no Centro, matando oito delas e ferindo dezenas de outras, apenas três policiais foram condenados e receberam sentenças longas; no entanto, nenhum deles realmente cumpriu sua pena. Acredita-se que esta atrocidade tenha sido motivada por uma tentativa maior e duradoura de “limpar as ruas” do Rio, esforços que ressurgiram antes da realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas.
Rafael Braga–um homem negro sem-teto preso durante os protestos em massa no Brasil em 2013–se tornou um símbolo da luta atual contra a criminalização da pobreza. Única pessoa a ser condenada por um crime durante estes protestos, o maior dos quais tinha mais de 300.000 participantes, ele foi condenado pelo transporte de detergente líquido sob a alegação de que era um “artefato explosivo ou incendiário, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar”. As respostas nas mídias sociais e os eventos de ativismo atuais que exigem a liberdade de Rafael Braga enfatizam que este caso destaca as ligações inextricáveis entre o racismo e a criminalização da pobreza.

Contradições na lei

A Constituição Federal Brasileira de 1988 oferece proteção em caso de discriminação à pobreza no Artigo 3, que apela a uma sociedade mais livre, justa e solidária (inciso I), a erradicação da pobreza e da marginalização, juntamente com a redução das desigualdades sociais (inciso III), e a promoção do bem-estar de todos sem preconceito de origem, idade, sexo, cor, idade ou outras formas de discriminação (inciso IV).
No entanto, a legislação brasileira também contém alguns componentes que reforçam a discriminação. A legislação sobre o uso de drogas e delitos envolvendo drogas afirma que a localização do uso de drogas, bem como as circunstâncias sociais e pessoais do acusado, vai determinar se a droga era destinada para uso pessoal (Lei n˚11.343, Capítulo III, art. 28, § 2º). Esta mesma lei também afirma que a sentença será determinada de acordo com a “personalidade e conduta social do agente” (Capítulo II dos Crimes, art. 42), um fator que pode ser muito subjetivo.
Felizmente, essa mesma lei também exige a contratação de serviços e organizações que servem para prevenir o uso de drogas e promover a inclusão social e melhoria da qualidade de vida (Título III, cap. I, art. 19, VIII e IX). No entanto, estas medidas claramente não são implantadas em comunidades desfavorecidas, onde o uso de drogas é mais severamente punido.
A Constituição Federal de 1988 prevê a liberdade de expressão cultural: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (Título II, cap. I, art. 5, IX). No entanto, o Brasil se opôs à sua própria Constituição, mais uma vez, quando implantou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a cultura dofunk em favelas em 1995. Criada com o objetivo de investigar a relação do funk com o tráfico de drogas, terminou em um projeto de leis que exigia que todos os futuros bailes funk fossem autorizados e acompanhados pela polícia do início ao fim, enquanto a pacificação trouxenovas restrições aos bailes funk.

A prisão como uma incubadora de violência

O sistema penitenciário brasileiro é outra instituição essencial na perpetuação de um ciclo de pobreza e violência que enreda muitas vidas jovens. O país tem a quarta maior população carcerária do mundo e dos presos, 40% nunca foram julgados, 59% estão entre as idades de 18 e 29 anos e aproximadamente 66% são negros. 93% da população prisional não tem um diploma de ensino médio e cerca de 45% não têm escolaridade acima do nível fundamental. Em centros de detenção juvenil, as estatísticas educacionais são ainda mais alarmantes. Esses números revelam um sistema incapacitante e que restringe a mobilidade ascendente entre as classes sociais.
Famílias inteiras, muitas vezes, sentem o peso de um único membro a ser preso, com ou sem motivo, porque a assistência jurídica acessível e de qualidade é difícil de encontrar na maioria dos estados e quase impossível em outros. Para montar uma defesa, as famílias são por vezes forçadas a abrir mão de suas casas ou outras necessidades básicas. Independentemente de saber se o indivíduo preso é culpado de um crime ou culpado apenas de ser pobre, negro, indígena ou qualquer outro rótulo que o torne “suspeito”, sem o dinheiro para montar uma defesa adequada, os parentes podem acabar se voltando para uma atividade criminosa em um esforço para apoiar financeiramente o preso em questão.
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Ao invés de servir para reformar e reintegrar criminosos à sociedade, as prisões brasileiras são caracterizadas por altos níveis de superlotação, assistência à saúde insuficiente, falta de oportunidades de educação ou de trabalho e exposição constante à violência. Não é nenhuma surpresa então que as maiores gangues de tráfico de drogas do Brasil tenham se formado dentro do sistema prisional e mantenham forte influência nos sistemas prisionais atualmente.

A cumplicidade da grande mídia

Ao representar majoritariamente as favelas como espaços urbanos perigosos e violentos e por representar seletivamente vítimas e criminosos por uma perspectiva racial, a mídia é tacitamente cúmplice da criminalização da pobreza.
As organizações da sociedade civil, os movimentos sociais e os ativistas têm feito grandes progressos no sentido de democratizar a mídia no Brasil, aproveitando as mídias sociais e outros canais de comunicação alternativos. No entanto, o oligopólio da mídia com fortes interesses políticos e econômicos persiste. A imagem das favelas pintada por esses principais meios de comunicação pode ser caracterizada como geralmente negativa e estigmatizante.
Em uma análise de 640 artigos ao longo de seis meses do ano 2011 a partir de três principais meios de comunicação de massa do Brasil (O Globo, Extra e Meia-Hora), o Observatório de Favelas descobriu que “em todos os seis meses ‘violência, criminalidade e drogas’ foram os temas predominantes na construção das narrativas jornalísticas sobre estes territórios, chegando a corresponder a mais de 70% das pautas” abordados durante este período sobre favelas.
Os canais de mídia internacionais tendem a ecoar alguns dos preconceitos e percepções negativas das favelas evidentes na mídia de massa brasileira. No relatório do período de 2009-2014 Favelas na Mídia, da Comunidades Catalisadoras, a seguinte tendência surgiu em seis dos maiores grupos de mídia de língua inglesa:
“Artigos claramente negativos superam significativamente os claramente positivos em cada ano, e os atributos mais comuns são consistentemente negativos, em todos os seis canais de mídia: as favelas são retratadas como ‘locais de violência’ e ‘locais de atividade de drogas / gangues’, enquanto os moradores são retratados como ‘financeiramente pobres’. Esses padrões reforçam a ideia errada de que os únicos assuntos digno de notícia sobre as favelas são negativos.”
ComplicityOfMedia
Além disso, ao examinar as representações das favelas ao longo dos últimos 30 a 35 anos, o estudo do Observatório de Favelas concluiu que a grande mídia brasileira “estabelece associações diretas entre estes territórios e o fenômeno da violência nos grandes centros. Esta relação simplificadora fez com que a sociedade naturalizasse a violência contra o morador de favela, culpando-o mesmo quando ele é vítima da violência e não seu autor”.
Muitas vezes sem qualquer evidência concreta, jovens negros das favelas suspeitos de crimes são tipicamente caracterizados pela grande mídia como “traficantes de drogas”, “criminosos” e “ladrões”. Por outro lado, um duplo padrão racial é aplicado: suspeitos brancos são frequentemente descritos como “jovens de classe média“, “adolescentes”, “estudantes” ou “jovens moradores” da Zona Sul que fizeram uma “escolha errada“, “fizeram a justiça com as próprias mãos” ou “desafiaram a lei”.
A violência é simultaneamente sensacionalizada–turvando as linhas entre ficção e realidade–e normalizada, criando a ilusão de que as favelas são espaços urbanos inerentemente perigosos habitados por indivíduos criminalmente propensos. Ao retratar a violência como um “espetáculo”, mas também como um aspecto normal da vida em favelas, estas representações da mídia ignoram condições sistêmicas e estruturais subjacentes à violência e à criminalidade não só em favelas–mas na cidade como um todo e na sociedade em geral.

Necessidade de reforma

A criminalização da pobreza permanece profundamente enraizada no tecido da sociedade carioca. Enquanto os moradores mais marginalizados da cidade buscam romper o ciclo da pobreza, as suas possibilidades de superá-lo são fundamentalmente ameaçadas por sua associação à criminalidade na visão do governo, da polícia, dos ricos interesses da mídia e de muitos brasileiros de classe média ou alta. Uma reforma das leis discriminatórias, das práticas policiais militarizadas e do sistema penal injusto é necessária para combater este ciclo, mas também deve ser acompanhada de políticas sustentáveis e eficazes para reduzir a desigualdade estrutural através da educação, assistência médica e oportunidades econômicas.