segunda-feira, 25 de julho de 2016

Colcha de retalhos

Mulheres de Pedra valoriza a cultura negra há 15 anos no litoral da zona oeste. 



Bem perto do belo litoral da Pedra de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro, fica o espaço de convivência do coletivo Mulheres de Pedra, que há 15 anos desenvolve diversas atividades culturais e de valorização da mulher e da cultura negra. No simpático e aconchegante espaço ocorrem saraus, apresentações teatrais, exibições de filmes, exposições, palestras etc, inclusive com hospedagem de grupos de vários lugares da cidade e de outros estados. “O maior retorno é o trabalho coletivo, é acreditar cada vez mais num mundo melhor, acreditar no afeto, no amor e no trabalho colaborativo. Acreditar e vencer”, afirma a pedagoga Leila Souza Netto, denominada a matriarca das Mulheres de Pedra.

"O maior retorno é o trabalho coletivo, é acreditar cada vez mais num mundo melhor, acreditar no afeto, no amor e no trabalho colaborativo. Acreditar e vencer."
Leila Souza Netto
Pedagoga e matriarca das Mulheres de Pedra
Leila e outras mulheres resolveram criar o espaço, a princípio, para reunir artistas plásticos que já haviam passado pela Pedra e não moravam mais lá. Uma das grandes inspirações para ela foi a artista Dora Romana, já falecida, que incentivou a produção de arte em quadrados de pano, que depois seriam transformados em grandes colchas de retalhos, ou painéis temáticos, um símbolo do trabalho feito pelas Mulheres de Pedra. A Pedra de Guaratiba até hoje é um local de muitos artistas plásticos, com grande presença de ateliês e exposições, abrigando nomes como os de Sérgio Vidal da Rocha e Mestre Saul, muito conhecidos na região. Heitorzinho dos Prazeres, filho do pintor e compositor Heitor dos Prazeres, teve um ateliê na Pedra por muito tempo, onde ofereceu oficinas de desenho e pintura para as crianças do bairro.
O coletivo está integrado ao Polo Cultural e Gastronômico da Pedra de Guaratiba, que atrai muita gente ao bairro, principalmente nos fins de semana, onde acontece um chorinho em frente à praia, assim como uma feira de artesanato. Sobre o retorno da população ao trabalho das Mulheres de Pedra, Leila diz que as pessoas veem o espaço de convivência como um território negro, como um espaço de trocas, não só pelos eventos, mas também pelas oficinas que o coletivo oferece. Além disso, as Mulheres de Pedra promovem essa troca com escolas da região, entre elas o Ciep Heitor dos Prazeres, a escola Myrthes Wenzel, a Casa Arte Vida e a Fundação Xuxa Meneghel. O grupo também se apresenta em outros espaços pela cidade, como aconteceu recentemente no 1º Circuito Carioca de Saraus, que circulou pelas arenas culturais do Rio, entre elas a Arena Abelardo Barbosa, a Arena Chacrinha, bem perto da sede das Mulheres de Pedra. Na Folia de Reis realizada em janeiro deste ano, a apresentação percorreu as ruas do bairro, com grande participação dos moradores.


Após tantos eventos importantes ocorridos nesses anos todos, a matriarca das Mulheres de Pedra destaca o ocorrido em outubro do ano passado, “Territórios da Fé…meninas ninadas do ventre poético do manguezal”, que reuniu 60 pessoas no espaço de convivência durante o fim de semana. “O objetivo era a realização de um filme, mas o mais importante foi a imersão de tanta gente reunida e a troca com coletivos de todo o Brasil hospedados aqui. Foi um sentimento muito forte, o fazer coletivo, a construção de um mundo melhor, de amor, de carinho, solidário. Economia solidária, um universo mais justo”, afirma Leila. Este projeto, como o filme gerado por ele, deu ao coletivo o primeiro lugar do prêmio Geraldo Jordão Pereira, do Instituto Rio. Outro filme produzido pelas Mulheres de Pedra, “Elekô”, ganhou quatro prêmios no Festival 72 horas Rio 2015, incluindo melhor filme e direção.
O espaço de convivência das Mulheres de Pedra fica na rua Saião Lobato, 138, pertinho do píer da Pedra e do Polo Gastronômico. Também fica perto da praça Raul Barrozo, no centro do bairro, também conhecida como praça do Rodo, pois era ali que o antigo bonde que vinha do bairro de Campo Grande rodava para fazer a viagem de volta. Mas a praia da Pedra, assim como toda a Baía de Sepetiba, infelizmente é poluída, um cenário bem diferente de algumas décadas atrás, quando a região era um balneário carioca, frequentado por milhares de pessoas no verão. A luta pela recuperação do meio ambiente tem mobilizado setores da sociedade local, inclusive as Mulheres de Pedra.

Escrito por Andre Luis Mansur



Jornalista e escritor, tendo passado por veículos como Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil e O Globo, onde publicou mais de cem críticas literárias. Tem nove livros publicados, a maioria sobre a história da cidade do Rio de Janeiro, como “O Velho Oeste Carioca”, “Fragmentos do Rio Antigo” e “Marechal Hermes – a história de um bairro”. Vive na zona oeste do Rio de Janeiro, no bairro de Campo Grande.
Fonte da matéria: http://projetocolabora.com.br/cultura/colcha-de-retalhos/

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