sexta-feira, 29 de julho de 2016

Matéria Especial - A força do esporte a serviço da comunidade














Por Rafael Barbosa, fundador e presidente do Instituto Santa Cruz de Esportes

Essa frase define bem o Instituto Santa Cruz de Esportes nesses quase 12 anos de atuação. Com suas atividades e sede na comunidade de Antares em Santa Cruz, a instituição tenta utilizar essa força que o esporte tem, como grande transformador de vidas, proporcionando acesso gratuito a atividades esportivas e ao lazer para crianças e adolescentes que tem uma realidade diária muito complicada.


Alunos participam de treinamentos e competições

A comunidade de Antares é comandada pelo tráfico de drogas e sofre com a guerra constante do tráfico, milícia e operações policiais. É comum as escolas da região ficarem sem aulas, dificultando ainda mais a perspectiva de melhoria de vida desses jovens. Por ser uma comunidade longe dos grandes centros e, como consequência, não ser uma “favela turística” também sofre por não ter investimentos. Observando tudo isso, dois jovens moradores da região resolveram retribuir o que pessoas fizeram por eles fora da comunidade: e assim surgiu o ISCE.

Iniciei no judô no Sesi (não imaginava que o espaço seria uma de nossas lutas no futuro) com 7 anos e, alguns anos depois, as atividades foram encerradas por conta da região ter sido cercada por bocas de fumo, não era mais atrativo ter atividades ali, e até perigoso. 

Com isso, tive que procurar outro lugar para treinar e um dos professores conseguiu uma vaga em um projeto da prefeitura em Campo Grande, onde passei minha infância e adolescência no esporte: vivia isso, competia, viajava, tinha bolsa de estudos e a realidade da comunidade não chegava a meus olhos. Claro, sabia de todas as dificuldades que tinha, de quão tarde eu chegava em casa por não ter transporte para minha comunidade, mas não sabia que muitos tinham a mesma dificuldade, e para muitos era até pior, porque viam tudo o que eu não via por estar no esporte. 

A realidade começou a ficar mais nítida quando estava na casa dos 15 para 16 anos, que tinha que escolher entre o esporte e um trabalho para ajudar em casa, mas como sempre tinha alguém para ajudar, consegui conciliar tudo, escola, trabalho e esporte. Em conversa com um colega, começamos a lembrar dos outros e fizemos uma conta rápida e percebemos que havíamos perdido pelo menos uns 10 desses colegas e comparamos conosco. No dia seguinte, já estavamos correndo atrás de espaço e materiais para iniciar aulas gratuitas do que sabiamos fazer: judô.


Primeiro espaço do ISCE na Associação de Moradores de Antares

Um ano depois tínhamos o espaço da associação de moradores de Antares, algumas peças de tatames antigos da academia de um de nossos professores, muitos kimonos doados por colegas e demos início ao projeto. Muitos não acreditavam, diziam que iria durar uns 3 meses, que éramos adolescentes, que tínhamos que curtir a vida. Hoje digo que deu certo, que virei adulto e que curti muito, e fiz muitos outros curtirem também. O Daniel e a Jeane (Outros dois fundadores) foram muito importantes, o Daniel por exemplo foi o que agilizou o espaço, participou de todo o processo em que perdíamos a noite para costurar os tatames velhos por exemplo, e a Jeane veio em seguida para dar qualidade as aulas e ser uma presença feminina fundamental, servindo como grande exemplo para todos, pela sua garra e histórico de vida.


Ruan, Mayron (professores), Rafael e Jeane, parte da equipe do ISCE

Depois de 9 anos atuando “informalmente” o projeto virou uma instituição, que agregou mais uma grande função, a de ocupar espaços que poderiam servir como espaço de iniciação esportiva e lazer. Hoje contamos com o apoio do Instituto Rio, o que proporciona o pagamento de taxas de competição para as crianças atendidas, acesso a atividades diversas, implantação do projeto nas escolas e o atendimento de aproximadamente 250 crianças e adolescentes. Algumas dessas crianças possuem bolsas de estudos em escolas particulares, viajam para competições Brasil a fora e até internacionais, outros ganham remuneração através do programa bolsa atleta do governo federal.

Além disso, uma de nossas metas é a de chamar a atenção de autoridades para esses espaços, oferecendo atividades esportivas diárias e gratuitas, como é o caso do antigo Sesi/ Senai de Antares, que conta com 2 campos de futebol, sendo um com medidas oficiais, 2 quadras poliesportivas, 2 piscinas, uma semiolímpica, ginásio poliesportivo fechado e com arquibancada e diversas salas. Por volta de 2009, o espaço ficou “abandondo” e serviu no ano seguinte como abrigo para familias que sofreram com desabamentos no Morro do Bumba, em Niteroi. A prefeitura aproveitou o espaço do Senai (são dois prédios anexos) para transformar em um abrigo, e deixou o espaço de lazer, Sesi abandonado completamente. Ocupamos permanente este espaço com aulas de judô e com outras atividades eventuais, como natação (quando tem manutenção na piscina), basquete, vôlei, futebol, futsal, etc. Além de eventos nos moldes de olimpíadas para chamar ainda mais a atenção.

FOTOS DE ANTES com as instalações ainda funcionando bem

Ginásio no evento Jogos Abertos da Favela(JAF) em 2015


Ginásio JAF 2015


Piscina JAF 2015

Porém, como não há manutenção do espaço para além do esforço que conseguimos empenhar em conjunto com o grupo de futebol que utiliza o campo, as instalações começaram a se degradar, a ruir. Fazemos um grande esforço para manter o local limpo e com o mínimo de manutenção, sem nenhum apoio governamental. Às vésperas das Olimpíadas na cidade do Rio de Janeiro temos um espaço que poderia estar sendo utilizado pelos atletas locais, mas que está abandonado.

FOTOS DE AGORA

Ginásio servindo como dormitório para usuários de crack


Uma das salas após um incêndio


Como a maioria dos espaços, o refeitório também está sendo utilizado como dormitório
Lixo acumulado em todas as partes


Piscina sem tratamento a quase um ano


Acredito que como em Antares existe esse espaço, deve ter muitos outros como esse na cidade que poderiam estar melhor sendo utilizados, e aproveitar para refletirmos sobre as condições que queremos dar para os jovens se desenvolverem em nossa cidade, e o legado olímpico não se resumir apenas as medalhas que por ventura nossos atletas venham a ganhar nas olimpíadas do Rio neste ano.


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